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Turismo: desenvolvimento sustentável
para o Brasil
de Norbert Suchanek
Aproximadamente 700 milhões de pessoas viagem anualmente
para um outro país como turistas (turismo internacional).
Por ano, mais de 1 bilhão de turistas tiraram férias
no mínimo uma vez dentro do próprio país
(turismo nacional). Estes números vão continuar
aumentando, mas a concorrência entre as regiões turísticas,
como alvo destes turistas, também aumentarão significativamente.
O turismo pode trazer lucro financeiro para qualquer região
do Brasil.
Mas também pode se tornar um grande prejuízo para
a economia, para a ecologia e para o desenvolvimento social das
comunidades rurais.
A pergunta crucial que cada prefeito, cada comunidade precisa
enfrentar é: Que tipo de turismo as pessoas, os municípios,
os prefeitos querem? Porque existem muitas formas de turismo,
perfís de turistas e várias maneiras de passar férias.
Correspondendo a isto, existem diversos fatores que contribuem
ou prejudicam o processo de desenvolvimento sustentável
de uma região, sendo ecologica e economicamente mais ou
menos vantajoso. Por exemplo: turistas que querem chegar à
região com o próprio carro, passar um ou dois dias
rapidamente, subir ao Pico da Bandeira pela nova Estrada Parque,
tirar algumas fotos e ir para a próxima "atração",
vão trazer para a região quase nenhum benefício;
ao contrário geram mais problemas. Poucos ganham com estes
«Turistas com estadias curtas (TEC)« , no máximo
proprietários de algum hotel, restaurante ou posto de gasolina.
Mas na ponta do lápis os "TEC" geram um grande
prejuízo para a região e os seus moradores. Os "TEC"
gastam muito pouco na região, poluem o ar com os seus carros,
criam mais confusão e barulho deixando apenas escrementos
e lixo para trás, que custa caro para os municípios
- maiores lixões, poluição dos rios, etc.
Os "TEC" raramente são conscientes do meio ambiente,
da cultura local e das estruturas sociais da região. Além
do barulho, da poluição, do lixo que estes "TEC"
trazem, este tipo de turista (que só busca a "atração",
a "adrenalina" e o consumismo) também é
responsável para um rápido aumento da prostituição,
do alcoolismo, do tráfico de drogas e crimes ligados a
essas atividades.
Uma consequência, muito mais grave para o processo de desenvolvimento
positivo da região, é o fato de que estes turistas
de curta estadia (TEC), que necessitam vir em massa para que possa
se tornar rentável, acarretarão o afastamento dos
"turistas que preferem uma estadia mais longa" - que
eu designo com o nome curto "TEL". Os TEL geralmente
tem mais respeito pela natureza, pelos costumes locais e para
os moradores da região. Contatos e amizades entre "locais"
e "turistas" geram intercâmbio cultural muito
importante e também convidam para uma nova estadia. Geralmente
estes "TEL" possuem muito interesse por uma natureza
intacta e pela própria saúde, gostam de tranquilidade,
de descançar numa região sem barulho. Gostam de
aprender e descobrir.
Um "TEL" que permaneça uma semana, por exemplo
na região do Caparaó, vai deixar mais dinheiro na
região do que 10 "TECs" que ficam só um
dia. Porque esta pessoa pagaria por 7 dias de hospedagem, vai
consumir 7 vezes café da manhã, almoço e
jantar em algum lugar. Provavelmente vai beber alguma cerveja
ou refrigerante, comer algum pão ou bolo em algum bar ou
padaria. Se este turista vier de ônibus, vai deixar ainda
mais dinheiro - alugando uma bicicleta, um cavalo ou moto; pagando
um taxi. É provável que vá querer conhecer
a região com a ajuda de um guia e talvez utilizar uma charrete.
Há regiões que ainda existem proprietários
que possuem cavalos e charretes e que os utiliza na dia-a-dia.
"TEL" gostam disto! Na verdade eles procuram lugares
onde as tradições ainda são mantidas. É
muito importante conhecer: "TEL" não procuram
mundos artificiais como as disneylândias dos "TEC"
- os consumidores de sensacionalismo. Estes "TEL" sendo
mais conscientes e mais valiosos economicamente para a região,
geralmente procuram lugares que tenham uma "característica
especial", onde poderão encontrar pessoas autênticas
que se orgulham e preservam os seus valores e tradições.
Os "TEL" também não gostam de passar pela
natureza com pressa, eles querem absorver as impressões
- florestas, rios, cachoeiras e se sentir alimentados pelo natural.
E especialmente nas florestas eles querem ter a impressão
de serem os primeiros a passar por lá, a sensação
de estar numa floresta (natureza) virgem. Não é
necessário que isto seja verdade, pois nem existe mais
isto - até mesmo a Lua tem sido visitada e possue alguns
sinais dessas visitas. Mas é importante que haja essa sensação
de descobrir algo novo, e não andar na floresta como num
shopping. Trilhas largas ou até mesmo uma estrada (sem
falar em teleférico!) não conseguem transmitir esta
sensação. Ao contrário, uma infra-estrutura
dessas vai destruir qualquer sensação de uma natureza
intácta. Assim as matas e montanhas perdem a sua atração
e mistério - perdem a sua dignidade
intrínsica!
Trilhas largas, estradas nas florestas e teleféricos nas
montanhas
existem demais na Europa e EUA. Ninquém vai viajar 14 horas
de avião e mais algumas horas de ônibus para chegar
em algum lugar só para andar numa trilha larga com placas,
etc..., onde os animais ficam longe e os únicos que chegam
perto são os mosquitos. Mas, talvez uma pequena trilha
tendo como guia um próprio morador local (um caiçara,
um antigo caçador ou palmiteiro), andando sobre troncos
caídos e sobre pedras; explorando os mistérios de
uma floresta tropical de perto - isto pode ser a experiência
que vale para enfrentar uma viagem tão longe.
Os municípios e as diretorias dos Parques do Brasil irão
lucrar 3 vezes
se deixarem a floresta como está:
1. Não terão despezas para criar, emplacar e manter
trilhas largas que
corta a floresta para grupos de turistas que tem pressa de chegar
a um determinado ponto turístico e que não querem
desconforto para isto;
2. Ao contrário, dinheiro vai entrar no caixa ao pagar
um guia local
qualificado e com a compra de provisões para esta "expedição";
3. A floresta e toda a natureza dentro dela é automaticamente
protegida de forma melhor. As pessoas que passam por dentro da
floresta estão sempre sob alguma supervisão, evitando
que
lixo algum seja deixado para trás, que as plantas e os
animais sofram qualquer dano e que incêndios sejam causados.
As "TEL" conscientes trazem mais algums benefícios
para a região.
Geralmente estão interessados na cultura e nos produtos
da região.
Escolhem sempre produtos regionais (caseiros) nas suas compras.
Uma pequena indústria de produtos orgânicos será
de dupla importância: para o turismo sustentável,
e também para o crescimento sustentável da região
em geral.
Então, como prevenir que aqueles, economica e ecologicamente
desfavoráveis "TEC", não cheguem numa
região que tenha um atrativo turístico (como Serras,
Praias e Cachoeiros ), mas os "TEL" sim?
Em parte esta pergunta já está respondida e óbvia.
Naturalmente não é possível proibir a chegada
de ninguém, imagine placas como: » Proibido para
"TEC"«. Mesmo porque um ou outro deles pode vir
a ser bem benéfico. E também os municípios
podem economizar nos orçamentos, porque os "TEC"
necessitam de certa infra-estrutura que as "TEL" não
precisam e nem querem. Por exemplo: muito asfalto, grandes ruas,
estradas e estacionamentos, caminhos largos nas florestas, etc...
- Os municípios poupam dinheiro e trabalho e ganham a simpatia
dos "TEL"; e os não tão desejados "TEC"
ficam em frente da TV em casa ou viagam para um destes mundos
artificais que já tem de sobra.
Naturalmente os "TEL", mais conscientes em relação
à saúde e ao meio ambiente, também gostam
de caminhar sózinhos e simplesmente usufruir das paisagems
naturais. E nas regioes rurais podemos considerar as simplicidades
como bens. Por exemplo, a regiao do Parque Nacional do Caparaó:
é esta infra-estrutura de estradas de terra que conectam
e passam pelos mais remotos sítios no entorno do Parque
e de todos os municípios. Esta rede de estradas de terra
não deve ser vista como obstáculo para o desenvolvimento;
ao contrário, ela é um bem que precisa ser protegido
e conservado. São as diferenças locais e regionais
que fazem o atrativo como um destino turístico. Se for
muito asfaltada, a região vai perder bastante de sua característica
e a diferença para outros locais fica menor.
Mas vamos falar da rede de estradas de terra existentes e como
incorporá-las num conceito turístico (ecológico).
Para tal é preciso muito pouco esforço. O importante
é que certas rotas sejam
caracterizadas, marcadas (por exemplo, com marcadores de cores
diferentes), e mapeadas; e naturalmente conversar com os proprietários
rurais sobre a possibilidade da passagem. Com algum trabalho simples
estas estradas podem ser interligadas para criar uma rede de caminhos
interessantes e belos. Todos podem se beneficiar desse sistema;
o turista que pode se alimentar em sua rota, os sitiantes que
oferecem hospedagem e comida (alguém tem café fresco
e bolo, o outro tem queijo e cerveja, etc...)
Uma região montanhosa no sul da Alemanha, chamada "Allgaeu",
que pelos erros do turismo no passado, mas aprendeu, pode servir
como bom exemplo. Lá a gente pode camhinar de um sítio
para o outro, sempre com a vista dos montanhas mais altas. E porque
eles vivem em sua maioria da pecuária, oferecem aos visitantes
principalmente produtos caseiros como leite, queijos, presunto
e pães.
Além disto, existem muitos outros meios para atrair "TEL".
Muitas vezes eles cooperam para um desenvolvimento saudável
e cologicamente correto, ao mesmo tempo.
Por exemplo, um projeto piloto inovador de recuperação
dos rios e de desenvolvimento ecológico, poderia atrair
todos os jornalistas e turistas nacionais e internacionais com
interesse no assunto referente ao meio ambiente. Os municípios
podem alcançar mais reconhecimento mundial, quando decidirem
trabalhar juntos para um desenvolvimento sustentável e
manifestar publicamente metas alvos a serem alcançadas.
Aqui eu gostaria de apresentar como exemplo positivo a Ilha de
Samsoe na Dinamarca. Tive a sorte de visitar esta ilha várias
vezes para colher material para o meu livro "Ausgebucht -
Zivilisationsfluch Tourismus" e também como "TEL"
com minha família. Samsoe tem aproximadamente 5.000 habitantes
distribuídos pelos 10 vilarejos e sítios locais.
A economia de Samsoe se baseia na agricultura, na pesca, no turismo
e no artesanato.
Em 1998, os habitantes de Samsoe decidiram, e se comprometeram
publicamente, que em 10 anos a ilha seria a primeira ilha 100%
ecológica da Dinamarca e do mundo! Em 2002 toda energia
consumida pelos habitantes já era produzida por meios ecologicamente
limpos (eólica, solar, biogás, etc...) e mais ou
menos toda agricultura desta ilha de 200 km2 era transformada
em plantios orgânicos. Já em 2005 estas pessoas de
Samsoe alcançam as metas propóstas 3 anos antes.
Existe ainda mais uma razão para que a Dinamarca e Samsoe
sejam bons exemplos a serem seguidos, no que se refere a desenvolvimento
sustentável. Cada ano aproximadamente 50.000 pessoas visitam
esta ilha de 5.000 habitantes - o que equivale a 10 vezes mais
turistas do que moradores. Estes turistas geralmente ficam um
ou duas ou mais semanas na ilha. Apesar disto não existe
um "turismo em massa". Lá não existe nenhum
grande hotel, nenhum grande camping, nenhum destes projetos artificiais
que danificaria a ilha ou mudaria o ambiente tranquilo do local
e dos pessoas.
Como isto foi possível?
Bem, uma razão parece ter sido que os turistas se espalharam
pelo ano todo, ocorrendo picos nos mezes de verão (Junho-Setembro).
Entretanto, não só isso foi decisivo para este desenvolvimento
saudável em Samsoe. Importante foram as leis que os municípios
e o governo da Dinamarca criaram muitos anos atrás. Por
exemplo: já há muitos anos é proibido construir
em áreas agrícolas e em áreas naturais. E
é permitido usar os vilarejos e outras áreas habitadas
existentes para serem integradas numa infra-estrutura turística.
Por isto, quase todos os turistas em Samsoe se hospedam em apartamentos
ou chalés que pertencem aos próprios habitantes.
Ficou proibido por lei que investidores estrangeiros viessem a
possuir tais apartamentos ou chalés. Deste modo, quase
toda receita que vem do turismo beneficia os próprios habitantes.
Eles mesmos podem decidir quando e quantos turistas eles querem
receber. Há também uma central de turismo estabelecida
pela prefeitura para cuidar do marketing e de outros aspectos
gerais. Além da cultura agrícola de Samsoe e dos
lindos vilarejos tradicionais, existem as praias naturais, que
por lei são abertas em todos os lugares para todas as pessoas,
elas são a atração principal do ilha.
A ilha vende todos os seus produtos sob um único nome,
"Samsoe", que se tornou marca registrada e grife de
qualidade. Existe: Samsoe leite, Samsoe cebola, Samsoe batata,
Samsoe manteiga, Samsoe geleia, Samsoe peixe, Samsoe joalheria
(bijouterias), etc...
A Dinamarca tem mais de 100 anos de experiência com o turismo
moderno. A Dinamarca é um dos muitos poucos países
deste planeta, que desenvolve o turismo para ser uma fonte de
renda sustentável para a sua população, sem
destruir o seu meio ambiente e a sua cultura.
Os municípios do Brasil deveriam se inteirar melhor desta
experiência e tirar os grandes benefícios desse modelo.
Assim será possível evitar muitos erros que foram
cometidos no passado, como os que ocorreram nos Alpes. Assim as
lindas montanhas, matas, manguezais, restingas, dunas e rios do
Brasil permanecerão lindos e atrativos.
Rio de Janeiro, 2006-01-14
Autor:
Norbert Suchanek,
Journalista especialista em Ecologia e de Turismo para um
desenvolvimento sustentavel
Autor dos Livros "Ausgebucht - Zivilisationsfluch Tourismus",
Stuttgart
2000 e "Mythos Wildnis", Stuttgart 2001
Norbert Suchanek foi editor chefe de revista "Vertraeglich
Reisen"
(Viagem com Responsabilidade) e da Revista Bionachrichten (Notícias
de ecologia e desenvolvimento sustentável) e escreveu para
vários jornais alemães.
Norbert Suchanek
Rua Joaquim Murtinho, 900/202 A
Santa Teresa - Rio de Janeiro/RJ
CEP 20.241-320
Tel. 0xx21 - 9911 8247
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